O MELHOR REMÉDIO É PREVENIR
O Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026-2028, segundo a publicação Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Desconsiderando os tumores de pele não melanoma, serão aproximadamente 518 mil diagnósticos anuais. O dado confirma uma tendência preocupante: o câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de morte no país.
Entre
os homens, o câncer de próstata segue como o mais incidente, com estimativa de
77.920 novos casos por ano. Entre as mulheres, o câncer de mama lidera, com
78.610 diagnósticos anuais. Também se destacam os tumores de cólon e reto,
pulmão e estômago. No caso do colo do útero, a incidência ainda é elevada,
especialmente nas regiões Norte e Nordeste, refletindo desigualdades no acesso
à vacinação contra o HPV e ao rastreamento adequado.
Diante
desse cenário, uma informação traz um alerta e esperança. Um levantamento da
Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria com a Agência Internacional de
Pesquisa em Câncer (IARC), aponta que 37,8% dos casos de câncer no mundo estão
relacionados a fatores evitáveis. O estudo, publicado na revista Nature Medicine, analisou
dados de 185 países e 36 tipos de câncer.
O
tabagismo aparece como o principal fator prevenível, responsável por cerca de
15% dos novos casos globais. Em seguida vêm as infecções, como HPV, hepatites
virais e Helicobacter pylori
(10%), e o consumo de álcool (3%). Entre os cânceres mais associados a causas
evitáveis estão pulmão, estômago e colo do útero.
Para
o oncologista clínico e coordenador do setor de Oncologia Clínica do Hospital
Amaral Carvalho (HAC), Alexandre Tobias, os dados reforçam que é possível agir
antes mesmo do diagnóstico. “A população tem a chance de ser protagonista do
cuidado de sua própria saúde, buscando evitar hábitos que a ciência já
comprovou que estão relacionados ao risco de contrair câncer, como tabagismo,
consumo excessivo de álcool e obesidade”, afirma.
Na
prática, muitos fatores de risco estão ligados ao estilo de vida. “O tabagismo
é o principal deles, seguido da obesidade. Destaco ainda dois pontos que vejo
muito em minha rotina: a baixa adesão da população brasileira à vacinação
contra o HPV, que pode ser um fator protetor contra vários tipos de câncer,
como colo de útero e orofaringe e a alimentação baseada em muitos alimentos
ultraprocessados, que possuem grande carga de produtos químicos e
conservantes”, explica Alexandre Tobias.
O
estudo também revela diferenças entre homens e mulheres. Entre os homens, os
fatores evitáveis representam parcela maior dos casos, com destaque para o
tabaco. Já entre as mulheres, as infecções, especialmente pelo HPV, lideram
como principal causa prevenível em muitos países, inclusive no Brasil.
Investir
em prevenção, segundo o especialista, gera ganhos que vão além da oncologia. “A
busca por bons hábitos de vida traz uma série de ganhos: além de diminuir o
risco de incidência de cânceres, também reduz o risco de doenças
cardiovasculares e diabetes. Tudo isso leva a uma perspectiva de vida melhor e
com mais qualidade”, ressalta.
Embora
hospitais oncológicos atuem prioritariamente no tratamento, seu papel na
conscientização é estratégico. No Hospital Amaral Carvalho, referência nacional
em oncologia, o cuidado é integral e inclui ações educativas permanentes.
“Somos focados no tratamento, mas sabemos que são fundamentais a promoção da
prevenção e a conscientização da população. Para isso, temos vários programas
de prevenção que nos ajudam a divulgar informações para a população e
participamos das campanhas temáticas durante todo o ano, como Fevereiro
Laranja, Outubro Rosa e Novembro Azul”, destaca Alexandre Tobias.
Os
números do INCA mostram a dimensão do desafio. Já os dados da OMS indicam que
parte significativa dele pode ser enfrentada com informação, políticas públicas
eficazes e escolhas individuais mais conscientes. Diante de quase 800 mil novos
casos por ano, prevenção não é detalhe, é estratégia de saúde pública e
compromisso com o futuro.